Relatório da OSCE aponta que Rússia doutrina e militariza crianças ucranianas
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Documento de especialistas
independentes do Mecanismo de Moscou, da Organização para a Segurança e
Cooperação na Europa, afirma que crianças sob ocupação são expostas à
propaganda desde os 6 anos e ao treinamento militar a partir dos 13
Viena (Áustria) - Crianças
ucranianas que vivem sob ocupação russa são submetidas à propaganda de guerra
desde os 6 anos, recebem treinamento militar a partir dos 13 anos e, aos 18,
podem ser convocadas para servir nas forças que ocupam seu próprio país. A
conclusão é de um relatório elaborado por especialistas independentes no âmbito
do Mecanismo de Moscou, da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa
(OSCE).
O documento afirma que a
Rússia mantém uma política de Estado para doutrinar, assimilar e militarizar
crianças ucranianas. Segundo os especialistas, não se trata de uma sequência de
casos isolados, mas de um sistema organizado que combina escola, burocracia,
coerção familiar, propaganda e preparação para o serviço militar.
A investigação foi aberta
depois que 41 países acionaram formalmente o Mecanismo de Moscou, instrumento
da OSCE usado em crises graves de direitos humanos e de direito humanitário. A
Rússia se recusou a cooperar com a missão.
O relatório identifica dois
grupos diretamente afetados: mais de 20,6 mil crianças deportadas ou
transferidas à força para a Rússia e um número ainda desconhecido de crianças
que permanecem em áreas ocupadas, incluindo Crimeia, Donetsk, Luhansk, Kherson
e Zaporizhzhia.
“Russificação”
O processo começa na sala de
aula. O currículo imposto pela Rússia inclui propaganda pró-guerra, apagamento
da identidade ucraniana e, entre 13 e 18 anos, treinamento de combate, manuseio
de armas, medicina tática e operação de drones. Aos 16 anos, adolescentes
ucranianos do sexo masculino passam a receber notificações prévias de
alistamento. Aos 18, podem ser incorporados às forças russas.
O relatório também descreve
um ambiente de pressão constante. Pais que se recusam a matricular os filhos em
escolas russas são ameaçados com a perda do poder familiar. Professores que
rejeitam o currículo imposto podem ser demitidos, revistados ou detidos.
Crianças e adolescentes chegam a ser perseguidos por publicações pró-Ucrânia
nas redes sociais.
Outra estratégia apontada
pelos especialistas é a chamada “russificação” forçada. Sem documentos russos,
famílias podem perder acesso à educação, saúde, serviços bancários, trabalho e
liberdade de circulação. Para a missão, a exigência funciona como um registro
compulsório que alimenta um futuro recrutamento militar.
O ministro das Relações
Exteriores da Ucrânia, Andrii Sybiha, afirmou que o relatório confirma, em
nível internacional, o caráter deliberado da política russa.
“O relatório da missão de
especialistas do Mecanismo de Moscou da OSCE é o primeiro a estabelecer, em
nível internacional, que as ações da Rússia contra crianças ucranianas não são
crimes isolados ou violações incidentais, mas uma política deliberada de
Estado. Militarização, doutrinação, assimilação forçada e deportação servem a
um único objetivo: destruir a identidade de uma geração inteira de ucranianos.
Isso constitui crime contra a humanidade. O destino das crianças ucranianas
deve ser parte integral de qualquer negociação de paz, e todos os envolvidos
nesses crimes devem ser responsabilizados”, afirmou.
Para Maksym Maksymov (foto), chefe
da Bring Kids Back UA, iniciativa criada pelo presidente Volodymyr Zelenskyy
para viabilizar o retorno das crianças levadas pela Rússia, o relatório expõe
uma política que prepara uma geração para a guerra.
“Durante anos, a Rússia vem
transformando crianças ucranianas sob ocupação em soldados: ensinando-as a
manusear armas e operar drones de combate em sala de aula, além de emitir
notificações de alistamento a partir dos 16 anos. A missão da OSCE mostrou,
pela primeira vez, que isso não é uma série de crimes isolados, mas um sistema
único, construído deliberadamente pelo Estado”, pontuou.
Crime
contra a humanidade
Apesar da recusa da Rússia
em cooperar com a investigação, os especialistas concluíram que a doutrinação e
a militarização de crianças ucranianas podem configurar crime contra a
humanidade, por perseguição com base na nacionalidade. O relatório também
classifica a deportação e a transferência forçada como crimes contra a
humanidade e aponta indícios de crimes de guerra, incluindo tortura e
tratamento desumano.
A principal recomendação é
que o destino das crianças ucranianas esteja no centro de qualquer negociação
de paz. O relatório ressalta que elas não podem ser tratadas como objeto
de troca. Seu retorno e sua proteção devem permanecer como uma pauta
humanitária própria e inegociável.
Sobre
o relatório
O relatório “Violações e
abusos do Direito Internacional Humanitário, dos Direitos Humanos e do Direito
Penal relacionados à militarização e doutrinação de crianças ucranianas pela
Federação Russa” (Report on Violations and Abuses of International
Humanitarian, Human Rights and Criminal Law related to Militarization and
Indoctrination of Ukrainian Children by the Russian Federation, no título
original em inglês) foi preparado por três especialistas independentes: Hervé
Ascensio, professor de Direito Internacional na Sorbonne Law School, da
Universidade Paris 1 Panthéon-Sorbonne; Elīna Šteinerte, especialista em
direitos humanos, prevenção à tortura e privação de liberdade, atual
vice-presidente do Subcomitê das Nações Unidas para a Prevenção da Tortura; e
Stefan Wolff, professor de Segurança Internacional na Universidade de
Birmingham, com experiência em conflitos, reconstrução pós-guerra e processos
de paz.
Este é o segundo documento
do Mecanismo de Moscou dedicado às crianças ucranianas. O primeiro, publicado
em maio de 2023, tratou da deportação ilegal e da transferência forçada. O novo
documento aprofunda a análise sobre assimilação forçada, reeducação, militarização,
propaganda obrigatória, intimidação e violência nos territórios temporariamente
ocupados.
Acesse o relatório completo
aqui: https://resources.osce.org/odihr/666398 (em
inglês)
Sobre a Bring Kids Back UA
A Bring Kids Back UA é uma
iniciativa lançada pelo presidente Volodymyr Zelenskyy, em 2023, para coordenar
os esforços de localização, retorno e reintegração de crianças ucranianas
deportadas, transferidas à força ou mantidas sob controle russo.
A iniciativa atua para
trazer de volta todas as crianças levadas pela Rússia, sem condições e sem
exceções. Também apoia famílias, reúne evidências sobre violações cometidas
contra crianças ucranianas e articula a cooperação internacional para ampliar a
pressão sobre Moscou.
Mais de um milhão de
crianças ucranianas ainda vivem em territórios temporariamente ocupados pela
Rússia. Até junho de 2026, 20.610 haviam sido oficialmente registradas como
deportadas ou transferidas à força. O número representa apenas os casos
verificados pela Ucrânia. A escala real pode ser maior, já que a Rússia não
fornece listas, oculta o paradeiro das crianças e altera nomes e status legais.
Até o momento, 2.368 crianças foram devolvidas.
Para saber mais sobre a
Bring Kids Back, acesse:
Site oficial: https://www.bringkidsback.org.ua/en (em
inglês)
Instagram: https://www.instagram.com/bringkidsback_ua
Sobre a coalizão
internacional pelo retorno das crianças ucranianas
Lançada em Kiev, em
fevereiro de 2024, pela Ucrânia e pelo Canadá, a Coalizão Internacional pelo
Retorno das Crianças Ucranianas reúne 50 países e organizações internacionais.
O grupo coordena esforços diplomáticos, humanitários, jurídicos e
informacionais para enfrentar a deportação e a transferência forçada de
crianças ucranianas. A próxima reunião ocorrerá em Toronto, nos dias 28 e 29 de
setembro de 2026.
Com
informações da assessoria de imprensa




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