Endometriose é uma das principais causas de infertilidade feminina

 

Doença afeta uma em cada dez mulheres em idade reprodutiva no mundo, totalizando 190 milhões de pessoas no mundo, sendo 7 milhões no Brasil. Diagnóstico de endometriose pode levar até 10 anos. Crédito: Psodaz/ Freepik

Goiânia (GO) - A endometriose é uma doença inflamatória crônica que afeta cerca de 10%  das mulheres em idade reprodutiva no mundo, ou seja uma em cada dez mulheres, totalizando aproximadamente 190 milhões de pessoas, sendo 7 milhões no Brasil. Causa dores intensas e pode demorar até 10 anos para o diagnóstico. De acordo com dados divulgados pelo Ministério da Saúde, houve um aumento de 76,2% nos atendimentos do Sistema Único de Saúde (SUS) nos últimos três anos.

A doença é apontada como uma das principais causas de infertilidade feminina, com impacto significativo na qualidade de vida. Caracterizada por dores intensas, a condição pode demorar até 10 anos para ser diagnosticada. Por isso, é necessário reduzir esse tempo de espera e garantir o acesso ao tratamento tornou-se urgente para devolver a qualidade de vida a essas pacientes. 

Segundo a ginecologista Gabriela Freitas (foto), da Clínica Vittá, o tempo médio para a confirmação da doença pode variar de sete a dez anos após o início dos sintomas. "O diagnóstico muitas vezes demora porque ainda existe uma normalização da dor menstrual. Muitas mulheres escutam por anos que cólica é normal, o que faz com que elas demorem a procurar ajuda ou a serem encaminhadas para investigação adequada", explica a médica.



Com o objetivo de dar visibilidade à doença, promover o diagnóstico precoce e alertar a sociedade e o poder público sobre a necessidade de agilizar e ampliar o acesso ao tratamento desta enfermidade, foi criada a campanha internacional Março Amarelo. A iniciativa mundial de conscientização sobre a doença ganhou maior alcance no Brasil com a criação do Dia Nacional de Luta contra a Endometriose, celebrado em 13 de março, oficializado pela Lei nº 14.324, sancionada em abril de 2022.

A falta de tratamento adequado para a endometriose pode causar a piora progressiva da dor e o comprometimento severo de órgãos adjacentes, além de um impacto arrasador na saúde mental da mulher. A campanha Março Amarelo reforça o alerta: sentir dor incapacitante não faz parte da natureza feminina, e a investigação especializada é o único caminho para recuperar a qualidade de vida.

Diagnóstico e os sinais de alerta

De acordo com a ginecologista, os principais sinais de suspeita são cólicas intensas e progressivas, dor durante as relações sexuais, chamada dispareunia, e desconforto para evacuar ou urinar no período menstrual. No entanto, mesmo apresentando os sintomas, muitas mulheres realizam exames ginecológicos preventivos e recebem resultados normais, gerando confusão. 

A especialista esclarece o motivo dessa falha no diagnóstico. “O ultrassom transvaginal de rotina muitas vezes não identifica a doença porque ele não é direcionado para essa investigação. O ideal é realizar um ultrassom transvaginal com preparo intestinal e protocolo específico para pesquisa de endometriose, além da ressonância magnética da pelve, que ajuda a avaliar a extensão e profundidade das lesões”. 

Gabriela Freitas ressalta também a existência de casos assintomáticos e afirma que o diagnóstico definitivo pode ser confirmado por uma laparoscopia com biópsia, embora atualmente muitos casos sejam diagnosticados apenas com exames de imagem e quadro clínico.

Infertilidade e tratamento

Um dos grandes temores acerca do diagnóstico é a dificuldade para engravidar. “A endometriose pode interferir na fertilidade por diferentes mecanismos: inflamação na pelve, alterações na anatomia das trompas e ovários, formação de aderências e, em alguns casos, impacto na qualidade dos óvulos”, detalha. A médica reconhece o obstáculo, mas tranquiliza as pacientes ressaltando que a gravidez natural é possível. 

Os tratamentos focam em remover focos da doença, reduzir a inflamação e usar técnicas de reprodução assistida para contornar os danos. Gabriela Freitas destaca que para os casos de dificuldade em engravidar, a medicina reprodutiva atua com eficácia por meio de indução da ovulação, inseminação ou fertilização in vitro (FIV).

Existem algumas opções de tratamento. A cirurgia de videolaparoscopia é frequentemente a primeira opção, especialmente para casos moderados a graves. O objetivo é remover as lesões de endometriose, liberar aderências e restaurar a anatomia pélvica, o que aumenta as taxas de gravidez natural em cerca de 40%.

O diagnóstico não é sinônimo obrigatório de intervenção cirúrgica imediata. Em muitos cenários, o tratamento clínico com bloqueio hormonal é suficiente. "A cirurgia não é necessária para todas as pacientes. Costuma ser indicada em casos de dor refratária ao tratamento clínico, presença de endometriomas ovarianos, comprometimento de órgãos como intestino ou quando há infertilidade associada e indicação específica", afirma a especialista.

As mulheres que querem engravidar podem recorrer à Fertilização in Vitro (FIV), considerada a forma mais eficaz, especialmente para mulheres com mais de 35 anos, endometriose profunda, ou quando as trompas estão obstruídas. A FIV supera a maioria dos problemas de fertilidade da endometriose, pois permite a coleta de óvulos diretamente dos ovários, fertilização em laboratório e transferência para o útero.

Já a Inseminação Artificial (IA) pode ser uma opção para formas leves da doença, combinada com estimulação ovariana, mas é menos eficaz que a FIV em casos mais avançados. Existe ainda o tratamento hormonal, que deve ser feito antes do FIV, com medicamentos que simulam uma ‘menopausa temporária’ e podem ser usados por três a seis meses antes da FIV para diminuir a inflamação e melhorar a receptividade do endométrio; e o congelamento de óvulos ou embriões.

Causas e fatores de risco

Ainda não se sabe com exatidão qual a causa da endometriose, mas acredita-se ser multifatorial, envolvendo fatores familiares, imunológicos e hormonais. A teoria mais aceita é a menstruação retrógrada, onde o sangue menstrual flui de volta pelas trompas para a cavidade abdominal, fixando e crescendo células do endométrio fora do útero. Embora o refluxo menstrual ocorra em muitas mulheres, apenas algumas desenvolvem a doença, sugerindo uma predisposição individual

Existem também os fatores hormonais, pois a doença é dependente de estrogênio para se desenvolver e crescer; familiares, ou seja, ter parentes de primeiro grau com a doença aumenta o risco; problemas imunológicos, quando o sistema imunológico pode não conseguir identificar e destruir células endometriais fora do útero; e a metaplasia celômica, que é a transformação de células que revestem o abdômen em células semelhantes ao endométrio.

Alguns fatores aumentam o risco da doença. Entre eles, a menarca precoce, ou seja, a primeira menstruação antes dos 12 anos; ciclos menstruais curtos, com menos de 27 dias; fluxo menstrual intenso e longo; menopausa tardia e nunca ter dado à luz.

A ciência aponta cada vez mais para o impacto sistêmico do estilo de vida no desenvolvimento e controle da doença. Diante deste quadro, recomenda-se ainda o acompanhamento multidisciplinar. Cuidados com a nutrição, fisioterapia pélvica e acupuntura têm ganhado protagonismo no controle das dores, visto que a doença acomete diferentes perfis de mulheres em idade reprodutiva, principalmente entre os 20 e 40 anos.

Com informações da assessoria de imprensa

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